Pesquisadora revela universo dos zines feministas em tese de doutorado

Por Mabel Dias

 

Conheci a Camila Melo, ou Camila Puni, durante o Festival feminista “Vulva la Vida”, que aconteceu em 2012, na cidade de Salvador, Bahia, projeto pensado pela baiana intrépida, Íris do Carmo.

Durante o festival, Camila realizou uma oficina de zines e colagens para mulheres de diversas partes do Brasil. Sua paixão pelos fanzines ou zines, como são mais conhecidos, começou nos anos 90. Um dos primeiros que ela produziu foi o “Grito Mouco”, de maneira totalmente autônoma. O último zine ela concluiu no verão de 2017, e deu como título a esse novo trabalho, “A era das orquídeas”. O tema gira em torno de: “yoga, dores e relacionamentos abertos”. Nos últimos anos, ela tem investigado na produção de zines, os contrastes de preto e branco, escala em cinza, o utilizar a máquina de escrever – trocada na maioria das vezes pelo computador, para datilografar os textos, e principalmente, escrito de uma maneira intimista, mas não pessoal.

Os fanzines são pedaços de papel, onde você pode fazer colagens de fotos, desenhos, e escrever textos sobre os mais variados assuntos. Camila escolheu a temática feminista.

Natural de Curitiba, ela decidiu fazer seu doutorado na PUC, do Rio de Janeiro no verão de 2015. E adivinha o que decidiu estudar? FANZINES! Sua pesquisa transita pelas teorias da comunicação e suas interfaces com artes, educação e estudos de gênero, passando pelas mídias e metodologias alternativas.

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Camila Puni, em sua instalação. Foto: Carolina Spork.

Através do amigo Guilherme Altmayer surgiu o convite para realizar uma instalação, que ela intitulou como “Curto-circuito de zines feministas (2015-2017)”, e que faz parte da exposição “Os corpos são obras”, sob a curadoria de Pablo Leon e Guilherme Altmayer,  no espaço Despina – Largo das Artes, no Centro do Rio de Janeiro. A instalação pode ser conferida até o dia 04 de agosto.

“É a exibição do processo de minha pesquisa ainda em andamento. É curto porque é um pequeno recorte, circuito por sua característica móvel e efêmera, zines feministas porque são vozes, letras, rabiscos, colagens, HQ’s e poesias datilografadas com raiva, afeto e sangue. Mas, não é um processo fácil. Sinto-me mergulhando de olhos fechados, pois como levar zines para um espaço institucional de arte? Um super desafio conflitante”, revela Camila.

Por isso, eles decidiram divulgar os zines através de uma instalação e não apenas exibi-los, como se faz habitualmente. “Os zines estão “em rede” amarradinhos com fitas roxas nas teclas da própria máquina de escrever, assim as pessoas podem ler, pegar, cheirar, rasgar, roubar, ou o que quiserem com esse objeto tão frágil e tão forte”, conta.

 

Para desenvolver sua pesquisa, Camila Melo mergulhou ainda mais no universo dos fanzines feministas. Eles chegam até ela de todas as formas, e de diversos lugares: São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e arredores. Mesmo com essa era digital, Camila tem recebido zines através de cartas, e realizado trocas com outras meninas no Rio

ou do Sul Fluminense. “Além disso, participo de coletivos de zines (Maracujá Roxa), da organização e criação de feiras (como a TESOURA e Feira Velcrx). Então dá pra ver que é muita emoção-criação-afetação. Hoje tenho muitos cadernos de campo, anotações diversas, entrevistas gravadas, fiz até uma tattoo como experimentação de pesquisa. Eu tento sempre pensar que a minha pesquisa é/será um grande ensaio ficcional, repleto de escrita etnográfica com uma pegada cartográfica.”, diz a pesquisadora.

 

Nos primeiros anos de pesquisa, ela conseguiu, além do doutorado, se envolver em outros projetos, como coletivos feministas da cidade, realizar oficinas de zine e colagem para a UNIRIO, UERJ e também UFRJ;  organizar a feira de artes+zines+festa TESOURA (com 2 edições que reuniu na CASANEM distros, coletivas, discotecagem, comida vegana e zineiras da America Latina), como também circular com a banquinha da Maracujá Roxa por algumas cidades ao redor do Rio de Janeiro. Agora, sua atenção está direcionada para a pesquisa de seu doutorado. Mas, estas experiências, sem dúvida, foram enriquecedoras para seu projeto.

 

A maior parte dos zines são feitos de maneira autônoma, e com pouco custo. Alguns têm sido produzidos em programas de design gráfico, como o photoshop ou indesign. Bem diferente do que era produzido nas décadas de 80, 90 e 200. Mesmo assim, Camila não acredita que o zine, em algum momento histórico, possa perder algo. “Acredito que ele só venha a se multiplicar, a se ramificar. É evidente a transformação de linguagem, o acesso a tecnologias de impressão e também de comunicação. Mas confesso que há um estranhamento quando chego numa mesa de exposição (também chamada de “banquinhas”) e vejo o valor de $30,00 por um zine de 1 ou 2 folhas. Uma vez participei de uma oficina de colagem aqui no Rio, num espaço alternativo no bairro Vila Isabel, foi-me cobrado $200,00. Confesso que saí de lá sem muitas novidades. Claro que a gente que vem do punk, do faça você mesmax estranha muito essa capitalização das artes subterrâneas, mas percebo que cada vez mais que alguns saberes das mãos, saberes da paciência, da experiência, do desacelerar vão diminuindo e com isso o valor sobe, o olho cresce e de repente se tem muito mais a técnica do que a experiência. Acredito que não dá pra ganhar dinheiro com zines, não dá pra capitalizar o chaos, porque zine é zona de passagem ao infinito de si, um si que é coletivo. Como cobrar por um objeto de arte zinística? Não sei, mas me recuso pagar menos que $5,00 para uma zineira que gastou com o transporte coletivo, com os materiais, com o tempo que ali depositou. Por isso, penso que o zine e o universo “alternativo” é aquilo que se faz deles.”, conta Camila Puni.

 

 

 

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Autor: senhoradaspalavrasblog.wordpress.com

Jornalista pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), integrante do Coletivo Intervozes, produtora e apresentadora do programa Alô, Comunidade na rádio Tabajara AM e em busca de seu lugar ao sol. Email: mabeld38@gmail.com

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