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Mulherio das Letras define que segundo encontro acontecerá no mês de novembro de 2018 no Guarujá, em São Paulo

 

Por Camila Bezerra

O Primeiro Encontro Nacional do Mulherio das Letras foi encerrado no início da tarde do domingo (15) em João Pessoa já com a expectativa do próximo. Em plenária, as mulheres presentes acolheram a proposta da Prefeitura do Guarujá para realizar o próximo encontro em 2018 e optaram por realizá-lo no mês de novembro.

Segundo a proposta, que foi repassada pela escritora Vanessa Ratton, a Prefeitura do Guarujá se comprometeu em ceder toda a estrutura necessária para acolher as mulheres que participem do encontro. Dentre os equipamentos previstos para utilização do Mulherio das Letras, estão o Teatro da cidade e a Fortaleza, além de escolas municipais.

As mulheres presentes no encerramento do Mulherio das Letras também acordaram que a rotatividade regional do local para sediar o encontro é um fator importante que contribui com a causa.

 

Roda das rodas

Com a intenção de formalizar e reunir os assuntos debatidos em cada roda de diálogo, que aconteceram na sexta-feira (13) e no sábado (14), as participantes de cada uma delas expôs um resumo ao grupo sobre o que foi debatido e sobre o que ficou estabelecido como consenso ou dissenso. O objetivo da roda das rodas foi proporcionar que todas as participantes entendessem as questões que foram levantadas durante todo o encontro, assim como pautar as próximas discussões e os próximos eventos.

A primeira roda de diálogo, que foi pautada pelo tema “Representação e representatividade nas literaturas das mulheres” se voltou para o debate acerca da maneira que a mulher é percebida literariamente. As participantes da roda questionaram os padrões impostos pela literatura em relação ao papel das mulheres. Elas ainda elaboraram uma lista com autoras contemporâneas que trabalham as questões de representação e representatividade em suas obras. Outro mote que pautou os debates foi a nomeação: literatura feminina. Uma das respostas a essa tentativa de nomenclatura foi a de que o termo adequado não seria literatura feminina, mas sim literatura escrita por mulheres, desde que abarque toda a escrita delas, independente de tema, estilo ou conteúdo.

Já a segunda roda de diálogo debateu sobre o tema “Mercado editorial e circulação de obras escritas por mulheres”. Segundo a participante da roda, o debate foi pautado por temas como visibilidade e dificuldade no trato com as editoras. Elas conseguiram estabelecer algumas formas de melhorar estas questões, como o incentivo à leitura de autoras, assim como estimular as próprias acadêmicas a fazerem resenhas das obras de outras escritoras. O debate desta roda ainda promete render bastante, já que ficou estabelecido dar continuidade a ele através de e-mails.

A terceira roda de diálogo teve como tema “Literaturas escritas por mulheres e feminismos”. Desta temática, as participantes da roda questionaram o fato de que se por serem mulheres, suas obras são essencialmente feministas. Elas também problematizaram o fato de que os homens estavam sentindo muita necessidade de falar durante as rodas. Algumas sentiram que estavam sendo ensinadas a discutir literatura. As participantes da roda ainda abordaram questões mais técnicas, como a relação com escritoras e até formas de publicação mais independentes, como através de financiamentos coletivos. Uma sugestão que surgiu nesta roda de diálogo foi também a possibilidade de desenvolver um aplicativo do Mulherio das Letras, tendo em vista as questões tecnológicas atuais.

A quarta roda de diálogo disponibilizada no encontro teve o tema “Escritoras, ilustradoras e leitoras das literaturas para crianças e jovens”. Uma das participantes desta roda citou que durante os debates foram levantados 21 problemas e apontadas duas soluções. As participantes da roda de diálogo decidiram criar um mecanismo de catálogo, através de um site, para reunir aquelas que são escritoras e ilustradoras de livros infanto-juvenis e detalhes sobre elas, como quais são suas obras e seus prêmios. A partir desta catalogação, pretende-se criar um selo para viabilizar publicações. Então, estas mulheres já entraram em acordo para fazer várias coletâneas abordando questões relativas às minorias. No caso, ficou estabelecido que cada coletânea irá fazer referência aos grupos minoritários através de seus protagonistas.

A quinta roda de diálogo, teve o tema “Vozes das mulheres negras brasileiras. E não sou uma mulher?”. Dentre os pontos debatidos pelas participantes da roda de diálogo esteve a estigmatização do corpo e da identidade da mulher negra, que foi reforçada pelo processo de colonização. Elas também destacaram que o registro que cabia às mulheres negras era feito por meio da oralidade. No entanto, este cenário tem se modificado e atualmente várias mulheres negras da militância, da academia, da literatura escrevem suas próprias histórias.

Ainda foi questionado durante o debate a representação das mulheres negras no imaginário social e sua estereotipização. As participantes chegaram a um consenso de que existem atualmente escritoras brasileiras que ressignificam de maneira respeitosa, humana e digna o corpo da mulher negra. As participantes da roda de diálogo também ressaltaram a importância de desenvolver uma forma de análise crítica sobre a escrita negra que não a desmereça e nem a veja como panfletária e inferior. Elas ainda reconheceram que a literatura negra é pouco estudada na academia. As participantes da quinta roda de diálogo também debateram sobre a recepção da autoria negra e sobre como o Mulherio das Letras abordou a temática.

Elas também apontaram os caminhos debatidos para superar o constante silenciamento do discurso da mulher negra. Dentre as possibilidades levantadas está a produção independente e o fortalecimento através de grupos presenciais e virtuais dos coletivos espalhados pelo país. Ainda foram sugeridas ações práticas como o fomento à leitura e escrita na penitenciária feminina, arrecadação e distribuição de livros, ratificar os grupos e fóruns de literatura. As participantes da roda de diálogo também reivindicaram que todos os Mulherios incluam as mulheres negras e que o grupo de organização contemple a diversidade étnica.

A sexta e última roda de diálogo levou para debate o tema “Literaturas, gêneros e sexualidade: representação e autoria na literatura brasileira”. As participantes desta roda de diálogo mostraram preocupação com o fato de que as mulheres que escrevem conteúdos eróticos são geralmente também relacionadas a suas obras. Também foram abordadas as diferenças entre rótulo e visibilidade. De acordo com a representante da roda, os debates foram muito abertos a questionamentos por parte das participantes.

 

Atividades culturais

Pouco antes de iniciar o encerramento do evento com as falas de representantes das rodas de diálogo, algumas das mulheres presentes improvisaram um sarau e recitaram poemas de sua autoria e da autoria de outras mulheres. Apesar de rápido, o sarau trouxe à tona várias temáticas que foram também abordadas durante o Primeiro Encontro Nacional do Mulherio das Letras.

Já após a exposição das rodas de diálogo, aconteceu a apresentação da orquestra feminina do Prima, que é o Programa pela Inclusão através da Música é da Arte, desenvolvido pelo Governo do Estado em escolas de toda a Paraíba. Estiveram representados três polos de João Pessoa na camerata formada pelas alunas. No repertório, a maestrina Priscila Santana destacou o caráter do encontro e também escolheu canções compostas por mulheres para as alunas executarem.

O I Encontro Nacional do Mulherio das Letras tem como correalizadores a Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba (Secult), a Fundação Espaço Cultural (Funesc), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e a ONG Moenda Arte e Cultura.

 

Feira Cria estimula interação da produção independente de ilustradoras e escritoras

Por Ana Carolina Abiahy

O Mulherio das Letras teve agregado à sua programação a Feira Cria de publicações independentes de literatura e gravura. Essa foi a segunda edição da Feira na capital paraibana que surgiu da ideia da jornalista e produtora cultura Marina Brazil. Para o Mulherio, foi pensada em uma edição apenas de mulheres. As 29 expositoras puderam apresentar seu trabalho no térreo do Espaço Cultural no final da tarde e início da noite desse sábado, 14.

Karla Noronha que é fotógrafa e professora universitária estava comercializando o seu trabalho autoral com cópias de fotografias que fizeram parte de uma exposição artística recentemente. Ela conta que a experiência é diferente porque geralmente as fotografias que comercializa já são encomendadas através de ensaios previamente acertados enquanto a Feira possibilita atrair o olhar do público que queira adquirir o seu trabalho como artista individual, com assinatura própria.

A Feira Cria também atraiu mulheres de fora do Estado que vieram especialmente para o Mulherio das Letras. É o caso de Solange Padilha, fotógrafa e escritora carioca. Na Feira, ela trouxe alguns exemplares de livros e cópias de poesias visuais. Solange já tem experiência de expor o seu trabalho em feiras de artistas no Rio de Janeiro, onde participa regularmente de uma feira no Museu da República. Ao saber da Feira Cria durante o evento encontrou a oportunidade de fazer o seu trabalho chegar a um público maior.

Minna Miná é uma jovem ilustradora que vem ganhando atenção crescente do público na Paraíba. Ela conta que a primeira feira que participou recentemente já rendeu uma vitória para a sua carreira. “Eu estava com uma campanha através do site Catarse, de financiamento coletivo, para conseguir publicar o meu primeiro livro, que deve sair pela Gráfica Santa Marta. Vão ser mais de 190 páginas, um trabalho profissional mesmo. E lá na Feira eu consegui bater a minha meta de arrecadação”, conta a artista que já trabalhou como designer em agências de publicidade e hoje ilustra as próprias narrativas.

Marina Brazil, que idealizou a Feira Cria, ressalta que a ideia é essa mesma: ajudar a impulsionar o trabalho através da economia criativa e estimular parcerias. Segundo Marina, muitos artistas que só se conheciam pela internet acabam travando relações na Feira e fechando negócios.

“Quando eu soube que ia ter o Mulherio das Letras me autoconvidei para participar porque sou escritora, sou mulher, trouxe hoje dois textos meus que estou distribuindo para o público. Sentia muita falta desses espaços de Feira. Muita gente eu conhecia pela internet e ao promover a Feira pude conhecer de perto. A feira coloca ilustradores e autores juntos e com isso novos trabalhos surgem”, relata Marina que também faz Mestrado em Antropologia e Artes Visuais.

A voz do Mulherio das Letras ecoando em rodas de diálogo

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Roda de diálogo “Vozes das Mulheres Negras Brasileiras”, no Mulherio das Letras. Foto: Adriano Franco.

Por Anne Nascimento

O I Encontro Nacional do Mulherio das Letras apresenta uma programação extensa que inclui uma série de rodas de diálogo simultâneas, organizadas de maneira horizontal e coletiva, no Espaço Cultural José Lins do Rêgo. Iniciadas na tarde da sexta-feira (13), as rodas tiveram continuidade na tarde deste sábado (14).

Sem a figura de uma mediadora, o que pode-se perceber nas diversas rodas onde mulheres distintas debateram temas que versam a respeito do universo literário, foi uma maior fluidez na troca de experiências e ideias.

Na roda intitulada “Vozes das Mulheres Negras Brasileiras. E não sou uma mulher?”, o diálogo foi retomado a partir do tópico que havia sido introduzido no dia anterior: indagações sobre o corpo feminino – de que maneira a visibilidade da mulher negra tem sido representada? A partir de tal questionamento, foi discutida a imagem da mulher negra, cujo corpo é constantemente objetificado e sexualizado, culminando no constante pedido de tais mulheres pelo respeito, não só para com o seu corpo, mas com as suas histórias, lutas e ancestralidade. Outro ponto de extrema relevância apresentado pelas participantes dessa roda foi a importância da literatura negra no processo de construção identitária, já que o acesso a produção negra, as ideias negras, pode não apenas descontruir, como reconstruir o pensamento vigente contribuindo, assim, com a humanização das mulheres negras que continuam a lutar diariamente por sua humanidade.

“Escritoras, ilustradoras e Leitoras das literaturas para crianças e jovens” foi mais uma das rodas de diálogo do sábado. Nela, apresentaram-se discussões a respeito da comercialização das obras e de toda problemática que envolve as produções literárias locais e a ausência desse mesmo tipo de produção nas livrarias das cidades. O patrulhamento a respeito de que tipo de escrita deve ser direcionado para as crianças foi outro tópico abordado. A liberdade para que a mulher possa escrever aquilo que lhe convém, percebendo sua força e sua voz e, portanto, apoderando-se dela, foi bastante incentivada pelas mulheres que encontraram-se nessa roda.

A roda de diálogo intitulada “Literaturas escritas por mulheres e feminismos”, entre outras questões, pontuou a importância do Mulherio das Letras na questão do empoderamento, do incentivar as mulheres a aprenderem sobre si, a acreditarem que o fato de ser mulher não as impede de escrever e de publicar.

A nomenclatura ‘literatura feminina’ foi problematizada, assim como as circunstâncias que culminaram no surgimento desse termo; bem como a suposta fragilidade daquilo que é escrito por mulheres. Enfatizou-se, também, o fato dessa literatura feita por mulheres não destinar-se exclusivamente às mulheres.

Na roda “Mercado editorial e circulação de obras escritas por mulheres”, o que viu-se foi um grande debate a cerca da atuação do Mulherio das Letras enquanto instrumento capaz de possibilitar uma maior inclusão da literatura feminina no mercado. O diagnóstico desse mercado também foi foco da roda.

A roda “Representação e representatividade nas literaturas de mulheres” discutiu pontos como a visibilidade, a falta de acesso às obras produzidas por mulheres e a formação de uma nova geração de leitores. Houve, ainda, a elaboração de uma lista de indicações para leitura com obras de mulheres que modificaram padrões e que discutem questões relativas ao gênero.

O I Encontro Nacional do Mulherio das Letras tem como correalizadores a Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba (Secult), a Fundação Espaço Cultural (Funesc), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e a ONG Moenda Arte e Cultura.

 

Projeto Cidade Poema é lançado no I Encontro Nacional Mulherio das Letras

 

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Maria Valéria Rezende e Valeska Asfora no lançamento do Cidade Poema. Foto: Adriano Franco

Por Ana Carolina Abiahy

O Projeto Cidade Poema, que começou em Porto Alegre em 2009, foi trazido para a Capital paraibana no I Encontro Nacional Mulherio das Letras. Idealizado pela jornalista e escritora Laís Chaffe, o projeto espalha poemas pela capital gaúcha ampliando público leitor. Como Laís Chaffe não conseguiu vir para o encontro, as escritoras Berenice Sica Lamas e Neli Germano foram as encarregadas diplomáticas do Mulherio das Letras do Rio Grande do Sul para trazer o projeto para a Paraíba.

As duas também têm suas criações poéticas estampadas no Projeto. Segundo Neli, são 63 poetas participando e a ênfase sempre é em poemas curtos e haicais que têm uma linguagem mais adequada ao leitor no espaço público. “São poemas em busdoor, restaurantes, bancos, instituições públicas, ampliou muito o alcance da poesia”, destaca Berenice.

Mesmo à distância, Laís Chaffe participou da entrevista interagindo com as respostas. Todas concordaram com o fato de que os vários suportes dados ao poema ultimamente têm ampliado muito o acesso do público leitor.

O lançamento oficial do Projeto na Paraíba ocorreu no início da tarde desse sábado, 14, na área ao lado do Teatro Paulo Pontes do Espaço Cultural. No ambiente, foram adesivados um haicai de Maria Valéria Rezende, uma das escritoras organizadora do evento, e um texto poético de Dôra Limeira.

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Lançamento do Cidade Poema no hall do Paulo Pontes. Foto: Adriano Franco

A produtora cultural Valeska Asfora abriu as falas para o público destacando principalmente a figura de Dôra Limeira, falecida no ano passado, e que fez um trabalho consistente ao longo de toda a vida em torno da contação de histórias e da cultura popular paraibana, deixando um legado de artistas na família. Ela explicou que, ao longo da semana, os poemas serão espalhados pela capital paraibana, em vários espaços.

“O compromisso do projeto é levar encantamento para a rua, suavizar o ambiente urbano. É uma forma de interagir com outros escritores, tornar a arte um bem coletivo, encantar a cidade através da poesia”, ressaltou Neli para o público presente na ocasião.

Valéria Rezende ressaltou que a ideia de trazer o Cidade Poema para o evento começou como um sonho, já que os recursos para impressão dos imensos  adesivos ainda estavam fora do alcance das organizadoras. “Começamos a selecionar esses poemas e não sabíamos como íamos custear o transporte e a impressão. Até que a Revista Cult se ofereceu para cobrir essa despesa”, contou Valéria.

“João Pessoa vai virar Cidade Poema! Cabe ao Mulherio agora assumir e ir buscar parcerias para a continuidade. Nesse momento, precisamos mais do que nunca de doses diárias de poesia”, finalizou Valéria.

Fanzines, leituras e confecção de livros artesanais deram o tom das oficinas no Mulherio este sábado

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As produções das mulheres na oficina de fanzines. Foto: Kel Baster

Por Kel Baster

Do ato de ler à distribuição, as mulheres das palavras escritas percorrem o caminho da re-existência e uma aliada delas neste percurso é a criatividade nos seus modos de produção. Na manhã deste sábado, 14, ocorreram oficinas no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, durante o encontro do Mulherio das Letras que possibilitaram trocas entre diversas mulheres que já estão fazendo com que suas criações sejam cada vez mais autônomas. Na programação as oficinas ‘Ler com Prazer’ com Alessandra Roscoe, ‘Arteterapia em escrita’ com Eliana Mara, ‘Cartonera Caleidoscópio’ com Patrícia Vasconcelos e ‘Fanzine’ com Leia Mulheres JP.

“A gente já sabe que as mulheres escrevem, a dificuldade é a publicação, então a cartonera vem como uma forma transgressora de quebrar o sistema. Então você escreve, imprime no seu próprio computador e pode fazer uma capa de uma forma extremamente criativa usando papelão que foi descartado. E ai isso gera, além de não poluir o ambiente com o descarte indevido, uma capa diferente e personalizada e permite o empoderamento da mulher, no sentido dela fazer e publicar sua obra, ressaltou Patrícia Vasconcelos, facilitadora da oficina Cartonera Caleidoscópio.

Patrícia mora no município Lagoa dos Gatos, agreste pernambucano, e desenvolve lá junto a sua editora Caleidoscópio, eventos e produções artesanais de obras literárias de escritores pernambucanos e de outros lugares. “Eu vim correndo para o Mulherio porque para a mulher, principalmente a do interior do Nordeste, ela não se vê nesse lugar de empoderamento. O discurso dela tem peso dois nessa sociedade completamente machista. Então um encontro das mulheres que repele, que ilumine na verdade, que coloque em foco uma escrita que acontece, porque ela acontece desde o caderninho de receitas da cozinha, mas poucas se veem como possíveis de visibilidade. Então juntar essa forma de se fazer transgressora com o Mulherio está sendo fantástico”.

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FOTO: Kel Baster

Outra transgressora forma de publicar conteúdos de forma criativa e independente são os Fanzines, informativos produzidos de forma independente com foco na cultura. “Nossa oficina teve tudo a ver com o Mulherio porque tanto fanzine como esse encontro são produzidos de forma independente e ainda ‘marginal’. A origem dele é ser feito de forma manual, como fizemos aqui hoje, utilizando uma estética artesanal. Você pode fazer seu próprio conteúdo, é um formato de mídia independente. E a distribuição mais ampliada pode ser feita via internet”, explicou Laíza Félix, facilitadora da oficina e integrante do Leia Mulheres JP.

“Plantar desejos leitores” foi uma das intenções da escritora Alessandra Roscoe, durante a oficina que facilitou ‘Ler com Prazer’. Na roda de leitura que foi realizada houve partilhas e escutas profundas das diversas vozes afetivas presentes. “A oficina é um espaço para abrir o olhar para conhecer o trabalho uma das outras. Foi uma experiência muito bonita, eu saio daqui muito alimentada. Eu acho que não tem mais volta, o Mulherio foi muito inovador, da gente enxergar essa força que temos e romper quando nos dizem não. Nós, não só da literatura, mas a gente que lida com a arte de forma geral, a gente já mudou de categoria, não somos mais existencialista, a gente é ‘insistencialista’. A gente não desiste, a gente vai atrás e inventa formas. Pra mim o Mulherio é extremamente insistencialista”, finaliza Alessandra.

Mesa “Mulherio além fronteiras” conecta mentes e culturas em João Pessoa

 

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Mulherio além fronteiras. Foto: Kel Baster

Por Kel Baster

“Voar em bando” é fala corriqueira da escritora brasileira Mariana Brasil, que encontrou no país inspiração para seu pseudônimo literário e materializou seus escritos nas vivências e memórias construídas entre Brasil e Itália, este último onde reside atualmente. Essa ponte entre países possibilitada pela escrita a levou a criar a ACIMA (Associaciazionne Culturale Internazionale Mandala) que é um espaço para divulgar autoras brasileiras na Itália. Mariana, que também é editora e sócia da SAAR, uma distribuidora alternativa do Paraná foi uma das convidadas da Mesa “Mulherio além fronteiras” que ocorreu neste sábado,14, no auditório da PBTur, no bairro Tambaú, em João Pessoa, dentro da programação do I Encontro Nacional Mulherio das Letras.

A mesa foi um momento de partilhas de experiências entre três autoras brasileiras, sendo que duas delas moram fora há muitos anos e continuam a levar literatura nossa para além fronteiras. “O objetivo foi intercambiar as histórias de escritoras brasileiras que moram há anos em outros países, no caso desta mesa especificamente entre Brasil, Itália e França e discutir nossas produções e trajetórias literárias”, explicou na abertura, a responsável pela mesa Jô Mendonça Alcoforado, integrante da Rede Escritoras Brasileiras Paraíba (REBRA-PB) e coordenadora do Projeto Extensão FLUEX – Intercâmbio cultural entre Paraíba, Brasil e outros países/UFPB/PRAC/COPAC.

 

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Foto: Kel Baster

A mesa contou também com a participação da jornalista e pesquisadora Mazé Torquato Chotil radicada em Paris há 30 anos e que também tem nas memórias, elemento propulsor de suas investigações literárias. Uma parte delas vividas no Mato Grosso do Sul. “Eu sempre tive vontade de escrever algo maior que um artigo. E eu acabei me envolvendo com a cultura francesa, que é um lugar de muitas histórias, onde a memória é importante. E vindo de um país que a gente considera ainda com pouca memória, mas não com pouca história. E tendo vivido no Mato Grosso do Sul escrevi baseada na minha infância e de outras pessoas ‘Lembranças do Sítio’ e em seguida ‘Minha aventura na colonização do Oeste’, que conta a trajetória da minha família e de outras pessoas que migraram para Dourados nos anos 50 carregando o sonho de progresso. Então eu acho que foi uma necessidade de registrar alguma coisa em termos de memória. Eu considero que tenho um trabalho de registrar a memória”.

Outro importante trabalho citado por Mazé é o seu livro ‘Trabalhadores Exilados – a saga de brasileiros forçados a partir (1964-1985) que buscou recuperar a memória e a história do exílio de brasileiros durante o período da ditadura militar. “Em 1979 com a Anistia, os exilados estavam lutando e eu era foca, estava aprendendo a ser jornalista na imprensa de Osasco, em São Paulo, que em 68 foi um grande local de resistência dos trabalhadores. Eu conheci José Ibrahim que era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. E já em Paris eu trabalho com uma instituição que assessora os Comitês de Empresa na França. Cada empresa na França que tem mais de cinquenta trabalhadores tem direito a ter uma assessoria que os ajude a entender a economia da empresa e como ela está. E de repente estava em contatos com essas pessoas. E até então a literatura contou as histórias dos intelectuais exilados, mas pouco sobre os operários”.

Após as falas, Jô Mendonça convidou as autoras presentes na plateia a utilizarem o espaço para divulgarem suas obras, além da abertura para perguntas as escritoras convidadas. Houve ainda uma declamação do poema João Pessoa de Josinalda Lira. Angela Carneiro, que estava na plateia, foi uma das que se pronunciaram para parabenizar a mesa e afirmar “a importância do Mulherio das Letras para todas nós mulheres, que como eu que faço tradução em diversas línguas, pode conhecer escritoras desconhecidas ou aproximar contatos possíveis entre um ‘mercado’ de mulheres que existe e resiste por nós”. “Podemos aproveitar espaços como o Mulherio para otimizar redes e possibilitar a divulgação e a distribuição de nossos escritos”, complementou Mazé Torquato. Durante a programação da manhã do Mulherio das Letras no auditório da PBTur também foi possível comprar e trocar publicações das escritoras através de uma banca de livros armada no local.

 

A #Ocupação Mulherio das Letras fez da palavra e dos encontros um palco vibrante de diálogos artísticos

 

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Foto: Dina Faria

 

Por Dina Faria

No segundo dia do Encontro do Mulherio das Letras, realizado nesta sexta-feira, 13, a Usina Cultural Energisa recebeu dezenas de artistas, de diferentes locais do Brasil e da América Latina que ali se reuniram para dar forma a diferentes atividades que resultaram num evento de pura arte. A agenda foi focada na multiplicidade de linguagens artísticas, partindo todas elas da palavra escrita. Artistas plásticas, atrizes, cantoras, pesquisadoras e escritoras produziram um diálogo intenso e uma importante troca de ideias e de visões.

De Goiás veio a representação do Mulherio das Letras local que, com sua “Poesia Têxtil”, desafiou o público a bordar palavras consideradas agressoras num corpo feminino desenhado num impactante fundo preto. Em todas as participantes a reflexão sobre a escolha de palavras nem sempre foi rápida e a resposta óbvia, mas o processo permitiu um questionamento pertinente e o resultado é uma obra ainda em construção. Do Mulherio das Letras de Goiás ainda saiu a notícia de que se vislumbra a possibilidade de um evento na região Norte, mais concretamente em Rondônia onde, até hoje, nenhuma mulher escritora foi mapeada, pelo que se evidencia a urgência de lá ser realizado um encontro.

Produção audiovisual também teve espaço na #Ocupação. Pela lente de diferentes participantes, a Mostra “Cartas Visuais” foi costurada pela diretora Maria Elisa Macedo (Belo Horizonte – MG) e apresentada ao público na Usina Cultural. O resultado foi uma Mostra de filmes-carta, que haviam sido enviados por uma convocatória para o tema “Cidades”. O resultado final ficou repleto de imagética e de monólogos poéticos que se envolvem com a trilha sonora numa dança perfeita.

E numa reunião de escritoras e poetas não poderiam faltar apresentações literárias e conversas entre autoras e público. Solane Carvalho (RJ) foi a primeira poeta a falar sobre o seu livro “Mulher – Prelúdio Para um canto maior” (Ed. Cromos). Causos da sua carreira como escritora e o desafio de ser mulher e cadeirante no mundo literário, além de leituras de poemas, foram tônicas da conversa. Alda Alexandre (Goiás – GO), poeta, pesquisadora, ativista e fanzineira também conversou sobre o seu trabalho e como é desenvolver trabalho literário no centro-oeste do país e de como isso é um desafio que não a esmorece. Sempre performática, Ângela Quinto brindou o público com a leitura de alguns de seus poemas e conversou sobre o seu livro “A linha entre o chumbo e a flor” (edição da autora). Socorro Lira também explanou sobre o que é ser poeta, escritora e cantora e de como concilia o diálogo entre as duas artes. Ainda desvendou ao público como foi musicar Maria Firmina dos Reis, a escritora homenageada na primeira edição do Encontro do Mulherio das Letras. A roda de conversas terminou com Anabelle Loivos (RJ) distribuindo suas pílulas literárias de uma garrafinha e falando e lendo excertos de seu livro “D. Maricotinha” (Ed. Oficina Raquel), uma homenagem poética a sua tia, onde fez um intenso exercício de resgate de memória.

No espaço externo, na Usina Cultural, o velho bonde que recorda o passado de João Pessoa, foi ocupado pelas artistas plásticas paraibanas Anna Diniz e Cristina Carvalho, com o varal “Suave Coisa (Nenhuma)”. Para quem chegava a cena era impactante e cumpria seu importante objetivo de alertar para a violência sexual sobre a mulher: dezenas de calcinhas simulando sangue flanavam para lembrar a atualidade do tema. Sentadas no bonde, as artistas convidavam o público a entregar suas calcinhas e a bordarem seus nomes, como forma de contribuírem para a performance.

Quase apoteose foi o que se seguiu e vivenciou na Usina Cultural: “Monstera Deliciosa”. Uma performance poética, visual e musical era a proposta de Natalia Barros (SP), Angela Quinto (SP), Lucia Serpa (PB) e Tânia Neiva (PB), mas ninguém estava preparado para o resultado: uma obra de arte em todos os sentidos. O ato (ou grito de alerta) teve a capacidade de unificar adjetivos outrora paradoxais: emocionante, contundente, delicada, transgressora, vibrante e cortante. “Monstera Deliciosa” tornou-se mais um dos sinônimos de “ser mulher”. Êxtase era a leitura que se fazia no olhar do público presente ao final da apresentação.

O encerramento da #Ocupação Mulherio das Letras ficou a cargo de Socorro Lira, no show de lançamento do EP “Seu Nome”, com poemas musicados de Maria Firmina dos Reis. A cantora paraibana, radicada em São Paulo, acompanhada dos músicos Jorge Ribbas (viola) e Lucas Carvalho (acordeon), encheu a Sala Vladimir Carvalho do melhor que ela sabe fazer: cantar um repertório delicado, poético e saboroso. A seu convite estiveram em palco André Morais (músico e cantor) e Tati Fraga (poeta) prestigiando e declamando poemas da autora homenageada pelo Encontro do Mulherio das Letras, trazendo muita magia ao show. A noite encerrou-se com os sorrisos e a dança de todo o público que, a convite da cantora, formou uma ciranda gigante e dançou animada e entusiasticamente.

A #Ocupação Mulherio das Letras contou com o apoio da Usina Cultural Energisa, lembrando também que o Encontro Nacional do Mulherio das Letras conta com a parceria da Secretaria de Cultura do estado da Paraíba (SECULT), a Fundação Espaço Cultural (FUNESC), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e a Ong Moenda Arte e Cultura.